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o trabalho da arte

Nuno Ramos

Em 1987, pode-se dizer que começa, de fato, a carreira individual de Nuno Ramos. Foi nesse ano que o artista apresentou a exposição Cal, na extinta sala do – INAP/Funarte, Rio de Janeiro. A exposição marca o início da trajetória de Nuno fora da Casa 7, ateliê criado na década de 1980 pelos também iniciantes Carlito Carvalhosa, Fábio Miguez, Paulo Monteiro e Rodrigo Andrade. O grupo se propunha, entre outras coisas, a estabelecer uma pesquisa conjunta relacionada à pintura. Na época, os artistas trabalhavam, principalmente, com tinta sobre papel kraft.

Após sair da Casa 7, Nuno começou a explorar diversos materiais não convencionais, procedimento que vem se mantendo durante sua trajetória e que deu origem a exposições como 111, instalação realizada na época do massacre do Carandiru; Casco (Shackleton) (1999), escultura concebida a partir dos relatos sobre o acidente ocorrido durante a expedição do navegador Henry Shackleton à Antártida em 1914; e Bandeira Branca II (2010), instalação realizada para a 29º Bienal de Artes de São Paulo, em que levou urubus para o espaço expositivo.

A pluralidade não é marca somente de sua produção como artista plástico, ela está presente também na atuação de Nuno em outros campos das artes: nos trabalhos com filmes (relacionados a sua obra plástica), nos livros publicados de prosa (O pão do corvo, Ó, entre outros) e de poesia (Junco), nas canções que compõe sozinho ou com parceiros. A presença da palavra permeia boa parte de sua produção e pode ser percebida em obras como Vidrotexto (1991), Caldas Aulete (ParaNelson 3) (2006), Soap opera (2008), ou, mais recentemente, nos desenhos da série Schreber (2011/2012), entre muitas outras. O próprio artista ressalta a importância da palavra em sua obra: “poucas coisas em artes plásticas eu faço sem passar por uma fabulação literária”.

Na exposição Cal, Nuno Ramos utilizou este material pouco convencional no universo da arte para produzir as cinco obras que compunham aquela mostra: Coluna, Monte, Vela, Um ano e Leque. Para a confecção delas, ele utiliza sarrafos de madeira, tecido de lona e algodão e, claro, cal. Da mesma maneira como a utilização do cal como matéria-prima se desdobrou na adoção de outros materiais inusitados – como vaselina, plástico, breu, ou areia –, alguns dos procedimentos empregados na realização dessa obra tornaram-se recorrentes para o artista. Entre eles, é possível citar a manipulação de materiais de maneira que adquiram configurações talvez não tão habituais. É o caso de Gotas (1998), em que o vidro é moldado de modo que possa ser encaixado em placas de mármore, adquirindo formas arredondadas e fazendo com que se pareçam com gotas d’água; e das Colunas que compõem Cal, formadas por ripas de madeira e permeadas pelo pó do material que, contrariando sua tendência de se espalhar, permanece compactado e retido dentro da estrutura.

A experiência da década de 80 é retomada agora no Centro Universitário Maria Antonia, com a exposição curada por João Bandeira, que é uma remontagem da primeira exposição, mas contando com o acréscimo de duas peças. São colunas feitas de madeira calcinada e cinzas, originalmente concebidas na época da exposição de 87 e só realizadas mais recentemente.

Nuno vê com bons olhos essa iniciativa de reconstituir uma exposição do passado: “Eu já fiz retrospectivas, mas o que eu acho legal aqui [Maria Antonia] é ser uma exposição, e não uma obra só. Isso eu achei uma ideia bonita. Eu acho que re fazer exposições é uma tarefa institucional rica. Fica uma coisa original pegar um momento do artista e isolá-lo como uma coisa significativa”.

Durante uma visita ao ateliê do artista, foi possível ver os protótipos a partir dos quais serão produzidas as colunas e presenciar um ensaio de reconstrução da peça Leque, feita de lona crua dobrada, cujas rugas são preenchidas por cal. Como os vincos não se sustentavam, Nuno concluiu que a lona utilizada originalmente era outra, alterando também o modo de manipular o tecido. Uma vez que se trata de uma remontagem, exceto por alguns ajustes a serem realizados entre as obras e o atual espaço expositivo e pela inclusão de mais dois elementos, o esforço de Nuno é para que a exposição de agora, aproxime-se o máximo possível daquela de 1987. Isso implica recuperar passo a passo o processo de construção das obras de maneira a se obter resultados semelhantes.

por Thierry Freitas e Lara Rivetti

Comentários

Tenho em casa um belíssimo quadro do artista de sua fase inicial pictórica, herança de meu irmão André e amigo de Nuno, que o comprou em uma de suas primeiras exposições. Prefiro a fase pictórica do Nuno.

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